sábado, 20 de novembro de 2010

cores e anjos e desertos

quando eu era pequena, conversava com meu anjo. apesar de abstrato, ele era muito verdadeiro comigo. um dia ele foi embora para proteger quem mais precisasse. eu tive de crescer. e veio o tédio, que fazia parte de uma vida de sentimentos honestos. e eu, crescendo, sem caber em mim. sem saber o que fazer com a sabedoria que me vinha. experiencias que antes eu confidenciava a um antigo amigo noturno. lembrei-me que ele disse na noite em que foi embora, que minha honestidade em relação a minha vida era meu pecado maior, e por isso viria um sucessor. um anjo impessoal e anonimo.

confesso agora, que primeiramente não tinha acreditado naquelas palavras.
foi então que numa noite dessas, fiz uma prece diferente... não pedi nada. foi uma prece profunda, eu ja não pedia mais. acordei no dia seguinte e vi que havia rastros de anjo pelos meus olhos, anjos deixam cores por toda a parte quando passam e é facil reconhecer um deles. sabia que meu anjo novo estava para chegar, e fui tomada pelo medo de não saber lidar com ele. mas mesmo assim, durante esse tempo eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave. mas cadê meu anjo? foi quando o reconheci escondido no tom de bronze velho... ele me esperava.
 

ele ja sabia qual era sua missão, mesmo sendo um anjo jovem. e eu estremecia, não tinha mais aquela habilidade de quando era criança. eu cresci, tive de faze-lo. mal pude acreditar que voltaria a ter alguem que aceitasse meus sonhos demorados e minhas insônias insuportaveis. mas eu ja sabia lidar com tudo isso sozinha. mesmo assim parecia milagroso, naõ acreditava que tanto me foi dado, logo eu que aprendera com a vida a pedir pouco.
com uma coragem de de principiante, que de fato eu era de novo, fui até ele. o coração imprudente pôs-se a bater alto demais, quase acordando o mundo que dormia. foram 5 ou 6 passos e um seculo de coração batendo. enfim cheguei, e fui recebida com um abraço que nele caberia a alma de todas as pessoas. o rito estava completo. mas aquela doçura me fatigava de certa maneira. reparei que ele não tinha asas, não disse nada a ele sobre isso, talvez a falta de asas magoe um anjo.

nos observamos e começamos a caminhar, aos poucos compactuamos. havia levissima embriaguez por estarmos juntos. ambos distraidos, rindo de tudo e à toa. senti uma leve pontada, era a minha vida me chamando, era o mundo em mim pedindo minha volta. dessa vez era eu que tinha de ir embora. era tudo tão estranho, pensei em pedir pra ele não me abandonar, mas lembrei de todas as vezes que tive a delicadeza de pedir e não me deram.

ele leu em meus olhos e em minha voz o constrangimento da partida. mas é da minha natureza abandonar e ser abandonada. foi uma das dores mais profundas que ja senti na vida, esse desapego. era necessário.

houve então entre nós o silencio de altar, silencio de portais. mas eu sabia, que na pior escuridão e no dia mais azul ele estaria comigo. eu tambem estaria com ele desde aquele dia até o juizo final. infelizmente sou uma terra de desertos. mas lembre-se , as dunas mudam com o tempo.. mas o deserto permanece o mesmo.