sábado, 16 de outubro de 2010
aqui jaz
eu fazia parte da grande espera, que por si mesma e em si mesma, é o que o universo todo faz. mas dentro da grande espera total, eu pedia trégua. aquela noite de inverno em agosto era do mais fino tecido, para sempre inquebrável. eu queria que a noite começasse enfim a tremer em leve espasmo, principiando a sua agonia, para que tambem eu pudesse dormir. mas eu sabia que a noite de estio não amanhece, ela apenas sudoriza na febre da madrugada. e sempre sou eu quem tem ido dormir, sempre sou eu qe entro em agonia, enquanto a noite permanece como um olho sem palpebras. guardando a mil panos o meu grão de insonia, que é o diamante que me coube. eu sei que não existe agonia. o mundo é eterno. e eu sabia que era eu que tinha de morrer.
faça bom proveito
mas o silencio por si só naõ melhorava nada. tarde ou cedo viriam a ler em meu rosto o constrangimento em relação a toda a circunstancia. foi então que a serpente me ensinou a dissimulação. a necessidade deu-me a intuição maquiavélica, isto é, a ocasião não consentia um rosto franco - sinceramente hostil - mas com um ar ameno, uma cordialidade de superficie, friamente cortês. desse modo salvava-se a paz doméstica, e era o essencial.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
sinceridades
nada é eterno, nada. até as mais profundas paixões morrem com o tempo. um homem sacrifica seu repouso, arrisca sua vida, afronta a vontade de sua mãe, rebela-se, pede a morte, e essa paixão que ele julgava ser eterna se dissolve às portas de um novo namoro, entre duas xicaras de chá ...
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
fênix
tenho que estar preparada para queimar em minha própria chama : como me renovar sem antes me tornar cinzas ?
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
baseado em fatos reais
Tudo errou. Quanto mais erravam, mais com aspereza queriam. Sem nenhum sorriso. De subto exigentes. Quiseram ter o que ja tinham. Quiseram dar um nome, quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que , não estando distraídos, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue. Quando o telefone finalmente tocou o deserto da espera ja havia cortado os fios. Tudo isso porque estavam sérios demais, não estavam distraídos.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
confidencias II
... porque eu me imaginava muito mais forte. porque eu, só por ter tido carinho, achei que amar era fácil. é porque eu não quis o amor solene. é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo de amar é brigando. é porque sempre tento chegar pelo meu modo. é porque eu ainda não sei ceder. é porque no fundo eu qero amar mais do que eu consigo. é porque eu me ofendo atoa, o mundo é eterno e eu me esqueço que quem nasceu depois fui eu.
domingo, 3 de outubro de 2010
confidencias I
Era leve, ágil, subta - com um pouco de destimidez - as vezes áspera, mas dotada de um espirito ondulante. Nisso poderia se encerrar o retrato da menina, se não conviesse também lhes falar de seus olhos, que, eram límpidos como os de Eva antes do pecado. Quando olhava de certo modo, ameaçava os refolhos da consciência alheia. Mas eram raras essas ocasiões. A expressão usual era meiga, ou indiferente. Em resumo, as feições dos 11 anos estavam ali, só que mais desenvolvidas e acentuadas.
sábado, 2 de outubro de 2010
Clarisse falou
Ficaria mais atraente se eu o tornasse mais atraente. Usando, por exemplo, algumas das coisas que emolduram uma coisa ou romance ou personagem. É perfeitamente lícito tornar atraente, só que ha um perigo. O perigo de um quadro se tornar quadro só porque a moldura o fez quadro. Para ler, é claro, prefiro o atraente. Me cansa menos, me arrasta mais, me delimita e me contorna. Para escrever, porém, tenho que prescindir. A experiencia vale a pena, mesmo que seja só para quem escreveu.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
me avisem da próxima
Ah, mas tem tanta coisa que eu não sabia. Nunca tinham me falado, por exemplo, desse sol das três horas. Não me tinham falado deste ritmo tão seco, em cada martelada de poeira. Mas que o passarinho que vem para a minha esperança abre asas de águia sobre mim. Não sabia o que é ser sombreada por grandes asas abertas, um bico de águia inclinado e rindo. Também não sabia no que dá mentir. Comecei a mentir por precaução , e ninguem me avisou do perigo de ser precavida, e depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir minha própria mentira - que era dizer a a verdade - decaí tanto que a mentira eu dizia crua, simples e curta : verdade bruta.
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